Incêndios Florestais e Qualidade da Água: Um Impacto que Nem Sempre se Vê
Quando pensamos em incêndios florestais, associamo-los sobretudo à destruição da vegetação, às emissões de fumo e ao risco para populações e bens.
No entanto, existe outra consequência menos visível, mas igualmente importante: o impacto dos incêndios na qualidade da água.
Depois de um incêndio, as alterações provocadas no solo e na vegetação podem afetar rios, albufeiras, águas subterrâneas e sistemas de abastecimento, criando novos desafios para a gestão e o tratamento da água.
Como afetam os incêndios os recursos hídricos?
A vegetação desempenha um papel essencial na retenção da água e na proteção do solo.
Quando uma área arde, perde-se parte dessa capacidade natural. O solo fica mais exposto à erosão e, durante períodos de chuva, aumenta a quantidade de água que escorre à superfície.
Essa escorrência pode transportar para os cursos de água:
- Cinzas;
- Sedimentos;
- Matéria orgânica;
- Nutrientes;
- Metais;
- Resíduos provenientes de materiais queimados;
- Outros contaminantes presentes no solo.
Quanto mais intensa for a chuva após o incêndio, maior pode ser a quantidade de materiais arrastados para rios e albufeiras.
Alterações na qualidade da água
Os efeitos podem variar consoante a dimensão do incêndio, o tipo de solo, a vegetação afetada, a intensidade da precipitação e as características da bacia hidrográfica.
Entre as alterações mais frequentes encontram-se:
Aumento da turbidez
A presença de sedimentos e partículas pode tornar a água mais turva e dificultar os processos de filtração.
Maior carga de matéria orgânica
Cinzas e restos de vegetação queimada podem aumentar significativamente a concentração de matéria orgânica na água.
Alterações de nutrientes
O transporte de azoto e fósforo pode contribuir para desequilíbrios nos ecossistemas aquáticos e favorecer, em determinadas condições, o crescimento de algas.
Presença de metais e outros compostos
A combustão pode mobilizar determinados elementos presentes naturalmente no solo ou em materiais existentes na zona afetada, aumentando a sua concentração temporária na água.
Porque se torna o tratamento mais difícil?
As estações de tratamento de água são dimensionadas para lidar com determinadas características da água de origem.
Após um incêndio, essas características podem alterar-se rapidamente.
Um aumento acentuado de turbidez, matéria orgânica ou partículas pode exigir:
- Maior utilização de coagulantes;
- Reforço da filtração;
- Limpezas mais frequentes;
- Ajustes na desinfeção;
- Monitorização adicional;
- Alteração temporária de determinados parâmetros operacionais.
O risco de subprodutos da desinfeção
Quando existe uma concentração elevada de matéria orgânica, esta pode reagir com determinados desinfetantes utilizados no tratamento da água.
No caso da cloração, podem formar-se subprodutos da desinfeção, como os trihalometanos.
Por isso, após um incêndio, o controlo da matéria orgânica assume particular importância para garantir simultaneamente uma desinfeção eficaz e uma boa qualidade final da água.
A importância da monitorização após os incêndios
Os efeitos de um incêndio não terminam quando as chamas são extintas.
Em muitas bacias hidrográficas, os impactos na qualidade da água podem prolongar-se durante meses ou mesmo mais tempo, sobretudo quando ocorrem episódios de chuva intensa.
Por isso, é fundamental reforçar a monitorização de parâmetros como:
- Turbidez;
- Matéria orgânica;
- pH;
- Condutividade;
- Nutrientes;
- Metais;
- Qualidade microbiológica.
Uma monitorização contínua permite antecipar alterações e adaptar rapidamente os processos de tratamento.
Portugal e os riscos associados aos incêndios
Portugal apresenta condições particularmente sensíveis a este problema devido à frequência de incêndios florestais e à existência de várias bacias hidrográficas importantes próximas de áreas florestais.
Após grandes incêndios, a erosão do solo e o transporte de cinzas e sedimentos podem afetar temporariamente a qualidade da água de rios e albufeiras.
Por isso, a proteção das zonas envolventes das captações e o planeamento das ações de recuperação são fundamentais para reduzir estes impactos.
Soluções de prevenção e recuperação
A melhor resposta começa antes do incêndio e continua depois dele.
Entre as medidas mais importantes encontram-se:
- Gestão adequada da vegetação;
- Proteção das margens dos rios;
- Reflorestação com espécies adequadas;
- Recuperação de zonas húmidas;
- Controlo da erosão;
- Criação de barreiras para retenção de sedimentos;
- Monitorização das bacias hidrográficas;
- Planos de contingência para os sistemas de abastecimento.
Estas medidas ajudam a reduzir a quantidade de contaminantes que chega à água.
Tecnologias para situações mais exigentes
Quando a qualidade da água se altera significativamente, podem ser necessárias tecnologias de tratamento complementares.
Dependendo do problema, podem ser utilizadas soluções como:
- Carvão ativado;
- Ultrafiltração;
- Processos avançados de oxidação;
- Filtração de elevada capacidade;
- Tecnologias de membrana;
- Sistemas reforçados de monitorização.
A escolha deve sempre ser feita com base na análise da água e nos contaminantes identificados.
Proteger a floresta é também proteger a água
Os incêndios florestais mostram como os diferentes ecossistemas estão interligados.
Proteger o solo e a vegetação significa também proteger rios, albufeiras, aquíferos e fontes de abastecimento.
Na CleanPur acompanhamos os desafios associados à qualidade da água e desenvolvemos soluções de tratamento adaptadas a situações de elevada variabilidade, contribuindo para uma gestão mais segura e resiliente dos recursos hídricos.